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  • Túlio Lima

O Violoncelo de Villa-Lobos

Heitor Villa-Lobos, nosso grande compositor, foi um violoncelista profissional. Começou a estudar o violoncelo aos cinco anos de idade, tomando aulas com seu pai, Raul Villa-Lobos.


O violoncelo foi seu ganha pão desde o início do século XX até que começou a ser reconhecido internacionalmente como compositor e como tal produziu um extenso e importantíssimo conjunto de obras para o instrumento durante toda a sua vida artística. Villa-Lobos esteve em Paris por duas vezes na década de 1920. A primeira entre 1923 e 24 teve um financiamento do governo e a segunda vez entre 1927 e 1930 foi patrocinado pela família Guinle, da Elite financeira do Rio, com quem se correspondia frequentemente.


O violoncelo objeto deste artigo pertenceu a Villa-Lobos e foi provavelmente comprado por ele por volta de 1929 em sua segunda estada em Paris, quando em uma correspondência a seus patrocinadores, lhes pede dinheiro para comprar o instrumento. No Livro “Heitor-Villa Lobos, o violoncelo e seu idiomatismo” de Hugo Vargas Pilger [1], encontramos: “Se este não é o instrumento de sua juventude, possivelmente foi comprado por volta de 1929, ano em que Villa-Lobos enviou uma carta para Arnaldo Guinle pedindo, entre outras coisas, dinheiro para comprar um violoncelo.” (PEPPERCORN, 2000 apud PILGER, 2013, p. 83) [1].


O Violoncelo


Em 2012 eu tive a oportunidade de ter esse violoncelo sob meus cuidados por algumas semanas quando realizei um trabalho de restauração. Confira o vídeo abaixo com toda esta história (Fonte: o autor. CC-BY-NC-ND):


O trabalho foi realizado a tempo de ser utilizado em um concerto muito especial. Na abertura do 50° Festival Villa-Lobos que acontece anualmente na sede do Museu Villa-Lobos, criado pela viúva do compositor em 1960 [2, 3]. O violoncelista, professor e pesquisador Hugo Pilger e a pianista e professora Lúcia Barrenechea executaram obras que comprovadamente eram tocadas por Villa-Lobos durante sua carreira como violoncelista.


Etiqueta praticamente intacta. Foto: acervo do autor. CC-BY-NC-ND (FonteAplica-se a todas as fotos deste artigo)

Hugo Pilger executou nesse concerto apenas as obras que constavam dos programas de recitais realizados pelo violoncelista Villa-Lobos até 1932, quando deixou de se apresentar como intérprete ao violoncelo. Além das obras, o concerto foi executado usando o recém-restaurado violoncelo que pertenceu a Villa. Trata-se de um violoncelo construído por Martin Diehl (Mainz, 1741 – 1793), em Mainz (hoje Alemanha) no ano de 1779 e que pertence ao acervo do Museu Villa-Lobos com sede no Rio de Janeiro.


Martin Diehl foi aluno de Nikolaus Döpfer (Füssen 1714 – Mainz 1788). Este violoncelo carrega as principais características oriundas de uma das Escolas de Luteria mais antigas da Europa. Füssen, situada ao sul da Baviera, nas proximidades de grandes centros culturais da região, foi o berço do que hoje consideramos, genericamente, como escola “Alemã”.


Diehl reflete claramente os ensinamentos de Döpfer, tendo construído um violoncelo com dimensões reduzidas, (tendo 729cm de comprimento de caixa e um diapasão de 381cm, comprimento de corda vibrante de 653 cm), com uma bombatura tipicamente “tirolesa”.


A escultura de tampo e fundo tem arcos bastante generosos que se elevam rapidamente a partir da sguscia da borda, como se encontra nos instrumentos mais típicos dessa escola. A caixa tem um aspecto de uma robustez bem peculiar que é ainda ressaltada pelo espaçamento de 10cm entre os furos superiores dos efes com um posicionamento bem vertical. A cabeça mostra a espiral da voluta e as formas da caixa de cravelhas que falam por si, nos remetendo imediatamente a instrumentos produzidos em Füssen e em diversas outras cidades próximas no que hoje conhecemos como Alemanha.


Döpfer, assim como inúmeros outros construtores de instrumentos nascidos em Füssen desde final do século XV, emigrou de sua cidade natal e estabeleceu-se mais ao norte em Mainz, onde, aparentemente, fundou um centro de treinamento para fabricantes de instrumentos, onde provavelmente Martin Diehl teve seu aprendizado. O interior do instrumento nos traz contrafaixas feitas em acero, blocos originais em pinho, faixa inferior em uma peça única, reforço em papel (ou pergaminho) para a junta do fundo, dois furos no bloco superior onde eram inseridos os cravos que prendiam o braço original (já substituído) que era colado sobre as faixas superiores.


O verniz também nos remete a Füssen, tendendo para o escuro e opaco, num tom de marrom característico sendo bastante fino e relativamente sensível e com uma textura delicada. A sonoridade é doce, redonda. É muito ressonante e com harmônicos graves presentes e bem definidos, como se pode ouvir em algumas faixas do CD/DVD/Bluray “Presença de Villa-Lobos”, onde Hugo Pilger executa algumas peças com o Martin Diehl [4].

O concerto do dia 09 de novembro de 2012 na abertura do festival foi memorável para todos os envolvidos e, para mim, foi especialmente emocionante, não somente por ouvir o instrumento restaurado, mas também pelo fato de ter ouvido algumas obras que provavelmente foram compostas pelo Villa utilizando esse instrumento.

O Trenzinho do Caipira, por exemplo, que ele compôs inicialmente para violoncelo e piano, foi escrita durante uma grande turnê que ele realizou em 1930 a 31 pelo interior de São Paulo, em um trem que fazia o percurso Bauru – Araraquara. Certamente, (pelo menos assim eu gosto de imaginar), muitas de suas geniais composições para o violoncelo, foram ouvidas pela primeira vez, tocadas pelo próprio compositor nesse mesmo violoncelo.

 

[1] PILGER, Hugo Vargas. Heitor Villa-Lobos: O violoncelo e seu idiomatismo. Editora CRV: 2013.


[2] COELHO, Leonardo; CAMARGO, Nilton (in memorian). O Violoncelo de Villa-Lobos. 50º Festival Villa Lobos. Disponível em: pt.calameo.com/read/001052588c452fd6428cb. Acesso em: 10 setembro 2021.


[3] MUSEU Villa-Lobos. Museu Villa Lobos RJ realiza edição de festival dedicado ao maestro. Site do museu disponível em: museuvillalobos.museus.gov.br/ (página do artigo original indisponível). Acesso em: 06 setembro 2021.


[4] Duo BARRENECHEA. Presença de Villa-Lobos. Site. CDs/DVD de violoncelo e piano. Disponível em: www.duobarrenechea.mus.br/presenca_villa_lobos.html. Acesso em: 10 setembro 2021.


[5] AQUINO, Felipe A. Villa-Lobos and The Cello: A voice for Brazil. The Strad, 22 junho 2021. Disponível em: https://www.thestrad.com/playing-and-teaching/villa-lobos-and-the-cello-a-voice-for-brazil/13072.article. Acesso em: 03 agosto 2021.

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