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  • Andrea Spada

Descobrindo a escola bresciana #1

Como todos os que iniciam seriamente na luteria, eu também procurei aprender sobre suas origens e contextos históricos. Basicamente, quando se aprende sobre luteria clássica, as informações orbitam ao redor da família Amati, Stradivari e Guarnieri; é necessário que nos aprofundemos sobre temas mais específicos para sair de Cremona e seus conceitos ou tudo parece se reduzir ao que é feito ou não conforme a escola cremonense.


Felizmente, existe vida além de Cremona, e quanta! Quanto mais me aprofundo em estudos, mais descubro o quanto outras cidades foram não apenas relevantes, mas determinantes para a origem e evolução dos instrumentos com os quais trabalhamos hoje. Ficando apenas no norte da península itálica, temos Bolonha, Veneza, Florença e Brescia.


Provavelmente pelo foco quase exclusivo que os iniciantes à luteria devotam ao violino, se demora um certo tempo para encontrar referência a autores que trabalharam sob perspectivas mais amplas, ou anteriores ao séc. XVII. Já eu, por ser contrabaixista - mesmo tendo iniciando meus estudos musicais no violoncelo, acabei me dedicando ao contrabaixo alguns anos depois - demorei pouco para chegar aos nomes de Gasparo da Salò (1540-1609) e Giovanni Paolo Maggini (1580-1630), pela relevância que ambos tem na produção dos melhores contrabaixos dos últimos séculos.


Contrabaixo de Gasparo da Salò (Brescia, c. 1590) [1]

Fica claro, quando se aprofunda o estudo desses dois gênios, que estamos frente a luthiers que desempenharam um papel realmente extraordinário na história e evolução do violino e afins [2]. Mas o melhor é que, como em geral acontece, quanto mais nos aprofundamos, mais interessante fica a história! Eles são os dois principais nomes da escola bresciana, de longa e antiga tradição, e luthiers de monumental relevância histórica.

brescia bresciana gasparo salò violino
Ole Bull (Gasparo da Salò, Brescia, 1562). Fonte: reprodução [4].
O primeiro, Gasparo da Salò, além de ter sido um dos aperfeiçoadores do violino, é o autor do contrabaixo possuído por Domenico Dragonetti (1763-1846), um dos primeiros grandes virtuosos contrabaixista de quem se tem notícia.

Esse instrumento está, hoje em dia, em exposição permanente na Basílica de São Marcos, em Veneza [1; confira as fotos: 3], e é tão extraordinário que o próprio Dragonetti dizia que, se por ventura algo tivesse acontecido a esse instrumento, ele teria parado de tocar! É basicamente a versão grave de "Il Cannone". E falando do diabo, também é o autor de um dos violinos mais antigos de que se tem notícia, e que foi tocado a vida toda pelo pupilo e herdeiro de Paganini: Ole Bornemann Bull [4].

Giovanni Paolo Maggini (Brescia, c. 1615). Fonte: reprodução [7]
Já Giovanni Paolo Maggini [7], além de ter produzidos inúmeras obras primas, como os instrumentos tocados por Simandl e Bottesini, é autor de um violino que foi estudado por Antonio Stradivari para produzir seu primeiro modelo autoral, o "large pattern Strad".

Minha curiosidade insaciável me fez aprofundar o estudo sobre essas duas figuras, não apenas sobre seu trabalho, mas também sobre suas vidas. Procurei saber em que contexto histórico estavam inseridos - algo fundamental para procurar entender seu trabalho e conceito - e fui descobrindo um mundo riquíssimo e verdadeiramente fascinante. Imediatamente percebi inúmeras diferenças com o que havia aprendido sobre a "luteria clássica", como dizíamos centrada sobre a luteria cremonense.


Foi bastante curioso também descobrir que ambos precederam de muitas décadas a consolidação desta outra escola e, apesar de triste, foi muito esclarecedor também descobrir como e o porque de seu declínio. Não sabemos muito, infelizmente, sobre as ideias e conceitos que os luthiers brescianos tinham. Devemos proceder através de estudos comparativos, estilísticos e historiográficos para contextualizar sua obra. Sabemos que, antes de do séc. XVII, Brescia era o centro econômico predominante para a luteria no norte da Itália, de onde eram exportados instrumentos de todo tipo para a França, seu principal cliente fora da Itália, e onde os nobres costumavam encomendar seus instrumentos. Dos vários registros recuperados, um especialmente notável por sua época se destaca: Isabella d'Este Gonzaga, Marchesa di Mantova, em 1495, voltando de Milão, em sua parada em Brescia adquiriu de renomado maistro de le viole (desconhecido), três violas da gamba. Quatro anos mais tarde, encomendou uma viola da gamba majore, expressando desejo explícito que fosse realizada pelo mesmo maestro [7].


Dados importantes provêm de outras produções artísticas, em especial da pintura: Brescia, desde 1426 a 1797, foi parte da república de Veneza, maior centro cultural e econômico da região (e de onde também proveniam as preciosas madeiras). Veneza, por sinal, seguiu Florença como polo ativo daquilo que hoje chamamos de Renascença, fazendo si que, em um terceiro momento, graças às tensões existentes entre ela e Milão, as cidades de Bergamo e Brescia, disputadas entras as duas cidades, acabassem se tornando um terceiro polo cultural da chamada "alta renascença".


Existe uma produção artística notável dessa época oriunda de Brescia, desde retratos a elaboradíssimos monumentos religiosos, e devemos portanto considerar o afluxo constante e abrangente de conceitos renascentistas que alimentaram sua cena cultural. Cito aqui os artistas Alessandro Bonvicino (Moretto da Brescia, 1498 - 1554), e seus aprendizes Giovanni Battista Moroni e Giovanni Savoldo, considerados os primeiros mestres do realismo, tendo produzido alguns dos mais espetaculares retratos da história da arte italiana da época.


Em Brescia existia uma rica produção liutaia já no final do séc XV. Nas primeiras décadas do séc XVI já haviam muitos lutieres ativos na cidade [2], entre eles Giovan Giacomo della Corna (desde 1524 apontado como "magistro a leuti, lirii et violini" [6]), Zanetto Micheli de Montichiari (em 1527 indicado como "Ioannettus de li violettis" [7]), Giovan Battista Doneda, Girolamo Virchi (padrino de Francesco, primogenito de Gasparo da Saló [8]) e Giovan Francesco Antegnati.


É interessante de se mencionar que, como indicam os documentos da época, até o inicio do século XVI os luthiers não exerciam seu ofício exclusivamente. Os que não atuavam também como músicos, compositores, pintores, notários ou entalhadores [9], pareciam fazer parte da guilda dos carpinteiros, mas parece que foi no período entre 1530 e 1560, no momento em que a escola bresciana atingia seu auge, que a luteria começou a ser considerado um ofício por si mesmo, independente, pois vemos nos registros municipais da época a evolução dos

termos usados nas autodeclarações a fins de imposto, e já no começo do séc. XVII a aparição de guildas de luthiers em Cremona, Veneza e outras cidades.


Muitos, se não a maioria dos luthiers de Brescia e entornos, até uma certa época, também eram músicos. O próprio Gasparo da Salò tocava o violino e o violone, no mínimo; seu pai Francesco (que já em 1540 era chamado de "Maestro de Violini", em vários documentos de impostos, e que apesar da morte prematura foi quem o iniciou na luteria) e seu tio Agostino eram ambos exímios instrumentistas, tendo se apresentando, conforme registros e em várias ocasiões, à corte do Duque Ludovico Sforza - curiosamente, a mesma onde anos antes Leonardo da Vinci também fui enviado pelos Medici em missão diplomática (como músico! [8]) e onde permaneceu por quase vinte anos...


Já Cremona, que ficava sob o domínio Espanhol, recebia influxos culturais diferentes e, talvez por causa disso, segundo apontado por estudiosos do assunto, o jovem Andrea Amati deve ter aprendido seu ofício em Brescia, entre 1520 e 1535, como de fato atestam o estilo de seus "efes" e a relativa tarda aparição de sua obra autoral, não antes de 1538.

 

Confira os próximos artigos com detalhes da luteria bresciana, sua origem numa região de arte efervescente, seu apogeu, bem como no declínio com a peste que assolou a região da Lombardia no final da década de 1620.

 

[1] Venezia: in San Marco risuona il contrabbasso ascoltato da Beethoven e Rossini. Disponível em: genteveneta.it/cultura/venezia-in-san-marco-risuona-il-contrabbasso-ascoltato-da-beethoven-e-rossini/ Acesso em: 07 ago 2021.

[2] LIVI, Giovanni. I Liutai celebrati dal Lanfranco. In: I Liutai Bresciani. Milão: 1896.

[3] SCARAMELLI, Sergio Gasparo da Salò (Brescia, c. 1590). Disponível em: italiandoublebasses.com/gasparo1590. Acesso em: 07 ago 2021.

[4] RAVASIO, Ugo. Il primo Gasparo di Ole Bull. Disponível em: liuteriabresciana.it/pop005.htm. Acesso em: 07 ago 2021.

[5] RAVASIO, Ugo. O violino Ole Bull. Disponível em: liuteriabresciana.it/pit009.htm?it=olebull. Acesso em: 07 ago 2021.

[6] DILWORTH, John. The Brescian School, part 1. Disponível em: tarisio.com/cozio-archive/cozio-carteggio/ brescia-part-1/. Acesso em: 07 ago 2021.

[7] DILWORTH, John. The Brescian School, part 2. Disponível em: tarisio.com/cozio-archive/cozio-carteggio/brescia-part-2/. Acesso em: 07 ago 2021.

[8] MUCCHI, A. M. Gasparo da Salò: La vita e l'opera 1540-1609. 1978.

[9] LIVI, Giovanni. I più antichi maestri, secondo i documenti. In: I Liutai Bresciani. Milão: 1896.

[10] POLLENS, Stwart. Some Misconceptions about the Baroque Violin. Claremont Graduate University: 2009.


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